sábado, 22 de outubro de 2016

ACÇÃO.

Mal lhe abriu a porta, o Grunho pregou uma tolada que fez o carocho cair-lhe aos pés. Lá dentro mais dois manos que ouviam música africana sentados num velho sofá apanharam com o taco de basebol no corpanzil e tão mal tratados ficaram das canetas que atravessaram a porta de gatas e a rastejar. Lá fora, o Besuntas, que tinha ficado de atalaia, encarregou-se de ir distribuindo pontapés entre os dois, que o primeiro já estava sedado. Não demorou cinco minutos desde que entrou até ter saído da pequena divisão. Lá dentro, revolveu tudo à procura da chave da aposta do Besuntas, malas de dinheiro, ou alguma coisa de valor. Quando reapareceu lá de dentro da barraca em chamas trouxe tudo o que pode trazer consigo. Lá vinha o telemóvel e a carteira do Besuntas, fios, pulseiras e anéis de ouro separados por género em sacos de plástico e ainda alguns maços de notas. Voltou à soleira da porta para puxar por uma perna o carocho adormecido antes que este começasse também a arder. - Meus meninos, se eu tivesse paciência arranjava uma cana de pesca…  O Besuntas voltou a pontapear as costas dos dois homens que até o Grunho ficou surpreendido. - Toma! Vira-milho, seus cabrões! e vai ser assim até que me digam onde está a massa! - gritou o Besuntas para os três desgraçados que muito juntos, choravam como crianças por se sentirem à beira da morte iminente. Tinha acabado de puxar para o chão o primeiro, que ao dar acordo de si tentou pisgar-se - Encontraste a chave do meu prémio, ou não? Vem lá a bófia e os bombeiros também não tardam aí! - O Grunho estava logo ali, encostado à carrinha. Ofegante, tentava contar o monte compacto de notas seguro por quatro elásticos sem o desmanchar. - Calma…isto aqui é muita pasta mas um milhão de paus é que não é! Pergunta a esses três santinhos onde está o resto das notas ou então o recibo do nosso euromilhões…- Os outros, desesperados, começaram a retorcer-se para se afastarem da barraca em chamas e iam jurando pela saúde dos seus filhos que não sabiam nada do que ele estava a falar. -  Bom, nesse caso, passarinhos fritos, para toda a gente! - Os rapazes ou não sabiam de nada ou não estavam com grande vontade de dar com a língua nos dentes, mas áquela hora isso também já não valia a pena avaliar porque o Grunho já estava com os olhos esgazeados quando partiu a correr para eles.

Já tinha o nome do Gandim, o que ele fazia e onde morava. Tratava-se de um gajo que o Grunho conhecera no Hospital de Santa Maria. Estava lá para fazer um raio-x naquele dia em que ele ajudou a segurança e depois a políca a expulsar da cave a família de ciganos que clandestinamente lá vivia há quase um ano. Ele e o Gandim tinham juntado forças e unidos pela bravura demonstrada tornaram-se amigos até o Gandim ter ido passar um Verão no Alentejo e ter voltado de lá a cantar modinhas regionais. Ainda viram juntos uns filmes de Kung-Fu da enorme colecção do Gandim mas depois disso nunca mais se deram. Ao que parece, a família dele tinha-se mudado. Neste momento, a mera suposição de que o Gandim começasse a desbaratar o prémio era o combustível para a sua fúria. Na manhã seguinte, conforme já tinha combinado com a vizinha muito amiga de sua mãe - principalmente por causa desta - todos os domingos de manhã enquanto a sua dona ia à missa, o Grunho tomava-lhe conta da Fanora, a cadela rafeira obesa que se costumava peidar forte e feio. - Fodei-vos! A Fanora não é carne para o vosso espeto! - com a cadela ao colo tentava enxutar ao pontapé a alcateia de quatro cães que ladravam e saltavam para chegar ao rechonchudo animal - Seus animais! Olha agora…Que tourada! Isto só comigo! - Um grupo de raparigas, estudantes a caminho da escola, algumas delas conhecidas do Grunho riam-se ao ver o Grunho atascado mais a cadela do cio em altas. Ele passava a mão pelo cabelo desde a testa até à nuca, soprava em desespero ao mesmo tempo que rodava entre os cães como se os toureasse - Então as meninas riem-se do bom samaritano? Que velhacas! - Uma parte do grupo, bastante sorridentes fazia vez para ir com toda a naturalidade cumprimentá-lo com dois beijos na cara. As restantes ficaram a olhar, talvez com medo dos cães - Venham cá dar um beijinho, não sejam tímidas! Eu nem sequer mordo!Só dou beijinhos e outras coisas maravilhosas que faço com a boca! Podem vir à vontadinha, venham descobrir o que isso é, se quiserem! Comigo vale tudo menos arrancar olhos! - Ao ver que as duas raparigas a quem se dirigia retomavam a sua marcha escolar, o Grunho deitou as últimas résteas do seu charme - Que livros são esses que levam aí? Se vocês gostam de ler, eu dou-vos a “leiteratura”! Jorra bem quentinha e é de qualidade nacional! Ai que isto até doi cá no coração! Nunca mais fazem os dezoito aninhos, pá! - Nisto, o Besuntas tinha-se aproximado, mantendo-se a comer um gelado na mão livre enquanto a outra agarrava o ferrugento corrimão das escadas. - Fodasse consegues ser mesmo porco, mas olha dou-te razão, estas miúdas da escola que só cheiram a leite não te largam mesmo com essas nojices que tu dizes, por isso tu é que estás bem!…- O Grunho já tinha corrido com todos os cães e agora era ávidamente lambido na cara pela pequena cadela nos seus braços - Meu, o que é que tu queres, não se pode ser bonito! Olha para isto!


Ao sair de casa, o Grunho, pele muito tostada pelo sol, cabelo muito preto penteado para trás, tanto podia ser confundido por um cigano como por um italiano do sul. Com o casaco ganga que comprou nos saldos sem experimentar e que portanto lhe ficava demasiado justo ao ponto de não conseguir apertar os botões. A seguir passou na Mercearia da ti Alice para se borrifar com desodorizante. Sabia que era uma questão de tempo até reaver o prémio do jogo, já sabia onde procurar. De momento poder-se-ia dizer que já estava melhor do que há vinte e quatro horas atrás pois que agora tinha em suas posses alguns milhares de contos. Ficou de se encontrar com a Dona no seu novo apartamento em Campo de Ourique e pensava por quanto tempo mais valeria a pena continuar a gastar dinheiro em corridas de taxi para ir ter com ela. Já lá ia um mês e meio ou coisa assim, o que para ele já se tornava intimidante. Era bonita? Sim, como quase todas. Boa na cama? Claro, como qualquer uma. Era uma lady? Era. E talvez por isso tivesse qualquer coisa de puta fina. Ao pé dela, as outras são apenas galdérias. Mas que se se lixe, esta também não haveria de ser a última, depois do pirafo desta noite estava tudo decidido. Ela já o compreendia demasiado bem. Já o estava a conhecer íntimamente, e como sempre quando isso acontece o Grunho sai de fininho. O taxi deixou-o em frente do prédio antigo de fachada verde-esmeralda. Subiu a estreita escadaria de madeira até ao primeiro patamar. Sempre gostou do interior destes prédios que pararam no tempo. Desde o agradável cheiro que se desprende dos degraus, o ranger do soalho, o patusco elevador miniatura de grade retráctil, a parca iluminação das escadas, tudo fazia-o sentir-se ancorado ao charme de Lisboa de uma forma voluntária e com bastante prazer. - Vieste? Cheguei a pensar que já não vinhas…como não confirmaste… - a Dona tinha vindo abrir a porta com um roupão de seda por cima do seu corpo possívelmente despido de roupa interior, numa das mãos, um balão de vidro com vinho tinto - Mas vim, tinha que vir, nem que fosse para me despedir de si. - O Grunho deu-lhe uma palmada no rabo e uma pequena dentada no pescoço - Ah, que bom, isso significa que gostas um niquinho de mim? Que não vieste cá apenas para te despedires de mim?  O Grunho despiu o casaco e procurou o maço de tabaco nos seus bolsos  - Claro que gosto, estou aqui, não estou? Se vim é porque eu quero. Não me limpo a qualquer guardanapo! - Ela fechou a porta com uma volta na chave - Desculpa?…Acabaste de me chamar guardanapo? O Grunho, já estava sentado no enorme sofá italiano de pele preta. - Ah, tanta conversa…aquilo que aqui interessa saber é que tu és a chama, eu sou o vento e que juntos vamos puxar fogo a Lisboa esta noite! E depois disso até tenho umas novidades que me deixam contentinho da vida. - A Dona sentou-se ao colo dele, acariciando-o da orelha até ao queixo, em movimentos lentos e repetitivos - Que malandro, não vales a comida que comes! Tanto homem que me deseja e eu só te quero a ti meu vadio…Vá, diz-me lá essas novidades, sempre conseguiste saber quem é que roubou o euromilhões do teu amigo? - O Grunho fá-la balançar com as pernas, sem desviar o olhar da opulência daquela sala, percorrendo o olhar pelos móveis, candeeiros de pé, a mesa de vidro cheia de curvas, os quadros modernos - Já sei de quem partiu a ideia e por acaso até conheço o animal. Já tem a missa encomendada, portanto daqui em diante é safoda, meteram-se com o Besuntas, meteram-se comigo! -   e enfiou finalmente o cigarro no beiço, sem o acender. A Dona entretanto começara a desapertar-lhe os botões da camisa - Sabes, querido, quando foram as mudanças das minhas coisas aqui para esta casa o teu amigo descaiu-se a dizer que o tipo é perigoso, que anda a rebentar caixas de multibanco por aí, entre outras coisas… - O Grunho cobriu a cara com as mãos, - Só pode ser isso, o Besuntas ficou ché-ché de tanto bater canholas! Então ele anda a contar essa merda? Sim, é verdade eu conheço o gajo há long time mas esteve desaparecido e só há pouco tempo descobri que o gajo é tão bom a estoirar caixotes multibanco como eu sou a estoirar dinheiro. Além disso ainda continua com a mania de que é atrevido e que bate em todos. Só tenho pena de não o ter apanhado lá na barraca que o punha a grelhar na chapa! Mas isto não são favas contadinhas, das duas, uma, ou entro à bruta, que é mesmo o meu estilo, ou vou ter de conseguir ganhar a confiança dele para me enfiar no seu círculo de amiguinhos, poder manjar o esquema, entendes? Depois meto o meu estilo na mesma. -  O Grunho tinha enfiado uns dedos na boca dela que os chupava - Posso tentar ajudar-te, também tenho os meus contactos e soube onde ele pára frequentemente…Vou buscar… o papel…

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