terça-feira, 12 de julho de 2016

INFORMAÇÕES.

Depois de um fim-de-semana bem preenchido na companhia da Dona, em que se vestiram integralmente de branco o tempo todo, onde o momento alto foi quando deixaram Tróia numa lancha para ir a uma festa exclusiva ao ar livre numa praia de Setúbal, onde também jogaram ténis no resort e adormeceram no jacuzzi do duplex com os copos de champanhe afundados na água depois de observarem os trilhões de estrelas que pairavam no céu. O Grunho vinha a conduzir o Jaguar verde-seco pela ponte Vasco da Gama, cansado e aborrecido o suficiente para continuar seguindo pela faixa da direita e um pouco nauseado pela inclinação dos candeeiros em série. Desesperado por não ter conseguido sintonizar a Radio Amália, acabou por desligar o auto-rádio e se pudesse também teria feito o mesmo com os ouvidos pouco tolerantes para com os irritantes avisos que o GPS ditava. Desceu na totalidade o vidrocdo seu lado. A Dona falava quase ininterruptamente desde que saíram da margem sul. - Contei-lhe sobre o parvalhão do meu marido ter comprado o apartamento sem ao menos reparar na linha do contracto onde está escrito que não é possível alugá-lo? - deu mais um gole na garrafa de vinho tinto que trouxe do jantar, - aquele cretino…portanto, o que isto significa? é que nunca vou ganhar dinheiro nos meses em que a casa ficar vazia, é isso que significa! Há coisas que só vistas e não contadas. - Como que desperto pelo vento que lhe entrava pela janela alvoraçando-lhe os cabelos, o Grunho foi abandonando o torpor pensativo que o tinha envolvido e começou a ultrapassar os poucos carros que áquela hora da noite faziam a longa travessia sobre o estuário do Sado. Começou a cantar um fado mais porque sabia ser essa a única forma de calar a mulher ao seu lado do que para seu próprio entretenimento. Pensava no Besuntas. Para combinar alguma coisa com ele uma vez que também ficou sem telemóvel no assalto, antes de sair tratou de encontrar pelas informações o número do Café do Adolfo, fazendo o próprio ir ter com o Besuntas para dizer-lhe a hora de tomarem juntos o pequeno-almoço. Era preciso fazer de polícia, ficar a saber de tudo o que se havia passado, quem poderiam ser os bandidos, se ele os conhecia, se era alguém do bairro e por todos os meios tentarem juntos encontrar uma pista que os levasse até ao ninho deles.

A Dona deixou-o, contrariada, em frente à Sé Catedral. Sentia-se entorpecida pelo álcool e pelo sono, esperava um convite para dormir em casa do Grunho ou na pensão do costume, mas ele não estava pelos ajustes. Durante todo o fim‑de‑semana foi congeminando factos e interrogações que finalmente esperava dissipar durante o pequeno-almoço com o Besuntas. - ´Tou mais teso que um barrote…Deixavas-me ver aí uma notinha para um café e tabaco, princesa? - Em gestos lentos ela retirou uma nota da pequena bolsa preta em pele que tinha aos seus pés e entregou-lha, visivelmente amuada - Meia nota de cem? Opá…Obrigado, minha flor mais bonita dos jardins de Lisboa…prometo ligar-lhe ao fim do dia - deu-lhe um beijo demasiado rápido para o momento que tinha criado e abriu a porta saltando como uma mola assim que embolsou a nota no bolso de trás das calças - Ai! A minha vida... Mais curta que comprida! - O Besuntas já lá vinha. A Dona saiu também para tomar o volante do carro e cá fora o Grunho deu-lhe um abraço - Não te esqueças de telefonar, então. Um bom dia para ti, querido. - O Grunho ficou a vê-la entrar e dar à ignição. No outro lado da rua o Besuntas estava parado a sorrir com cara de parvo. - Atenção, atenção, maricas na área! - vociferou o Grunho com a mão a fazer de altifalante junto à boca. 

O amigo vinha com a roupa do trabalho, a braguilha estragada vinha meia aberta e as velhas botas salpicadas de manchas de tinta e sem atacadores. Ainda estremunhado àquela hora da manhã, estacou quando viu o carro a afastar-se, com o aceno de braço da Dona. - Fodasse, como é que convenceste a gaja a deixar-te trazer aquela espada, meu? Fodasse e eu nem as putas olham p´ra mim - o Grunho estava neste momento no passeio, descalçava-se para sacudir dos sapatos de vela alguns grãos de areia acumulados de quando foram até à praia depois do jantar. - Animal, vais poder comprar meia dúzia daqueles com a massa do prémio que tu deixaste que te roubassem! E as gajas vão ser tantas que vais desejar ser paneleiro, e isso vai ser muito, muito bom para mim! Agora anda lá que já não está aqui nem a polícia nem os bombeiros para te chatear os cornos - e agarrando no braço do amigo, puxou-o para dentro do café. O Besuntas contou que tinha ido ao café para saber dos procedimentos a fazer para reclamar o primeiro prémio, e os rufias, que ou já se encontravam em alguma mesa, ou chegaram depois dele ouviram a sua conversa dele para o Adolfo. Nem um minuto, foi o que bastou. Sentiu qualquer coisa bater-lhe na cara ou na cabeça e apagou. Ficou confuso o resto do dia, mas do prémio de um milhão no Euromilhões lembrava-se bem. O Adolfo reconheceu pelo menos um deles, que por sinal também era conhecido do Grunho. Era um bacano com quem se dava por causa do pombal que ele e mais uns marmanjos tinham quando andava com a mania dos pombos. Malta das Olaias. Nesse momento o Grunho soube por onde começar. Cessado o interrogatório,  a conversa começou a ficar menos tensa e já mais animados, acabaram por falar do fim de semana do Grunho com a Dona, rumaram para as características psicológicas das mulheres, do seu poder de influenciar as tomadas de decisão do seu gajo quando ele não se entesa para ela e a ultrajante questão de no trabalho já mandarem nos homens e por também ganharem ordenados por vezes muito superiores aos deles, o que veio rápidamente alavancar o surgimento de um atraso na sociedade actual. Os cigarros de ambos sucediam-se e já era perto da hora de almoço quando os dois se levantaram para pagar os cafés e os bolos de arroz mas   continuavam ainda a discutir. O tópico tinha recaído sobre as diferenças no corpo da mulher após o milagre da maternidade, que, segundo o Grunho nem sempre era assim tão nefasto e devastador, assim como os seus efeitos no desempenho sexual das mesmas. Separaram-se na rua, porque já estava com os olhos vermelhos e inchados do sono e foi para casa. Ainda assim custou-lhe a adormecer. Tinha um plano para montar. 

2 comentários:

  1. Ui! O Grunho tem muito que aprender sobre as mulheres!

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  2. Ui! O Grunho tem muito que aprender sobre as mulheres!

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